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NO ESCURINHO DO CINEMA (por Mário Prata)
                                                                           
Quando desligam as luzes da nossa casa, foi porque a gente não pagou.
Recebeu a conta e não pagou. E aí começa a dor de cabeça. Porque a gente tem que ir num determinado lugar e pegar uma fila. É como se fosse um castigo para a nossa displicência. E é uma fila só de gente que não pagou a conta e desligaram a luzes de todos eles. Existe, portanto, uma cumplicidade envergonhada entre aqueles caloteiros todos.
Cada um tem uma história. Estava viajando, um. O cunhado sumiu com o cheque, explica o outro.

Agora imagine você, desligarem a luz de um país todo. O país não deve    
ter pago alguma conta, eu fico imaginando. Tava atrasado, duro, caindo pelas tabelas. E eu quero saber quem é que vai pegar a fila para religarem  a luz. Quem é que vai passar a vergonha. Em suma, quem é que vai assumir a  escuridão.
Como na fila dos pobres mortais, como eu, os grandões lá de cima, antes mesmo de desligarem a luz já estão jogando a culpa para cima dos outros.
Será que o Maluf (que trocou a Light pela Eletropaulomaluf) não  tem nada a ver com isso? Ou seria o ACM para apagar de vez os computadores  e todas as listas perigosas?
Eu estou morrendo de vergonha do resto do mundo. Que eu saiba é a primeira vez no mundo, que um país inteiro vai ficar no escurinho do cinema. Um fiasco, como diria meu pai. Como é que o mundo - nos  vendo  no escuro - vai continuar a acreditar que somos o país do futuro, se nem  luz temos? Esse papo de que faltou chuva é pra boi dormir no pasto seco.
A CBF, por exemplo, já marcou vários jogos noturnos para o Brasileiro.  Darão uma lanterninha para cada jogador e aos juízes? Não vai dar certo.  Nenhum time vai querer ficar na lanterna do campeonato.
O Bandido da Luz Vermelha morreu, infelizmente. Teria uma grande  utilidade no momento.
Eu estou é muito impressionado com a incapacidade daqueles homens  todos lá de Brasília que nós mesmo elegemos. O chefe-mór disse que a gente  não deve se preocupar porque o problema ainda está distante. Duas semanas, Fernando. Duas semanas de um problema iluminado desde janeiro. Como vocês são incapazes!
Eu espero, sinceramente, Fernando, que, levianamente ou não, vocês   arranjem um jeito de não nos deixar no escuro, literalmente. Sim, porque  ultimamente nada vinha sendo feito muito às claras por aí. Muita coisa por  baixo do pano, na calada da noite.
A minha última esperança é a Globo. Sim, se a Globo consegue que os   jogos de futebol comecem às 10 da noite (e ninguém chia), acender as   luzes  do Brasil vai ser moleza para ela. O Brasil pode ficar na escuridão, mas  as novelas vão ao ar. Disso eu tenho certeza. E, como   sempre, no horário.  Duvido que a emissora deixe o País na escuridão no horário nobre. Duvido.
Que país é este, minha gente, que não tem luz própria, num momento em   que o Fernando vem insistindo todo dia que tudo que ele faz é às claras? 
E, o pior de tudo, é que num apagão desses, não temos mais nenhuma   perspectiva de vislumbrar luz nenhuma no fim do túnel. Apagão é apagão,  não tem túnel.
O mais doido é que a palavra apagão nem tem nos dicionários.   Mas o governo vai conseguir colocar, agora. E é sempre bom para nós,   escritores, uma palavra a mais para podermos trabalhar. Mesmo que seja no escuro. Mesmo que seja morrendo de vergonha.
Repito: alguém não deve ter pago alguma conta por aí...
 

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